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A nova corrida espacial - que agora é disputada por empresas

Setembro 20 / 2017

Avanços tecnológicos estão transformando a forma tradicional da humanidade operar no espaço, e uma série de empresas estão prometendo viagens mais baratas, usando inovações como foguetes reutilizáveis e plataformas de lançamento horizontais.Satélites estão ficando menores. Da BBC

Desde os seus primórdios, com o lançamento do primeiro satélite Sputnik, em 1957, e o voo de Yuri Gagarin, em 1961, a exploração do espaço foi dominada pela rivalidade entre a União Soviética e os Estados Unidos. Nesta disputa tumultuada, empresas ficaram em segundo plano. Eram governos que custeavam os esforços.
Ainda que o primeiro satélite comercial do mundo, o Early Bird, tenha sido lançado em 1965, até recentemente a exploração comercial do espaço ainda estava praticamente limitada às grandes empresas de telecomunicações. Mas uma revolução está em curso.
Avanços tecnológicos estão transformando a forma tradicional da humanidade operar no espaço, e uma série de empresas estão prometendo viagens mais baratas, usando inovações como foguetes reutilizáveis e plataformas de lançamento horizontais.Satélites estão ficando menores e custando menos para serem produzidos - hoje, há cerca de 1,5 mil orbitando sobre nós. Por meio deles, um grande volume de dados e imagens está vindo do espaço, e novos participantes desse mercado agora processam, interpretam - e vendem - essas informações.
"Hoje, conseguimos fazer com um equipamento que cabe em uma caixa de sapato o que só era possível com um aparelho do tamanho de um ônibus", diz Stuart Martin, presidente da Satellite Applications Catapult, uma incubadora que ajuda empresas iniciantes, ou start-ups, do mercado espacial.
SubsídiosO setor vem atraindo muitos investimentos. Em 2016, essa indústria movimentou US$ 329 bilhões (R$ 1,02 trilhões) no mundo - e as empresas já respondem por 75% do total.
Veja por exemplo o segmento de foguetes, nossa forma de chegar ao espaço. São os bilionários que estão à frente na área. Elon Musk e sua Space X usam foguetes Falcon 9 para levar suprimentos para a Estação Espacial Internacional, enquanto Jeff Bezos desenvolve com a Blue Origin os foguetes New Shepard e New Glenn.
Ambas as companhias já fizeram demonstrações de técnicas revolucionárias que permitem o pouso vertical de espaçonaves, algo fundamental rumo aos foguetes reutilizáveis. Enquanto isso, a Virgin, de Richard Branson, trabalha em uma forma de lançar satélites a partir do ar, junto com planos de realizar voos turísticos suborbitais.
Até agora, nenhuma das empresas da área opera apenas de forma comercial. "Todas têm muitos subsídios do governo, de uma forma ou de outra", diz Stuart Martin.Uma empresa da Nova Zelândia tenta mudar a forma como usamos o espaço. A Rocket Lab ainda está só começando a operar, mas é a única fabricante de foguetes que tem seu próprio complexo para lançamentos, na península Mahia, na Ilha Norte do arquipélago neozelandês.
Apesar de foguetes não terem mudado muito desde o Sputnik - ainda é necessário levar sua carga além do alcance da gravidade da Terra para colocá-la em órbita -, seria um erro pensar que a Rocket Lab é uma fabricante de foguetes comum, diz seu fundador Peter Beck.
O custo atual do lançamento de um foguete é de cerca de US$ 200 milhões, um fator decisivo para que, nos Estados Unidos, tenham ocorrido, por exemplo, apenas 22 lançamentos no ano passado. Beck diz que, quando seu novo foguete Electron estiver operacional, ir ao espaço custará US$ 5 milhões e será algo que ocorrerá "com frequência semanal".
No centro da proposta da Rocket Lab está o foguete criado especialmente para colocar satélites pequenos em órbita. Ele é feito basicamente com fibra de carbono, e seus motores são produzidos com impressão 3D. Enquanto um motor comum demanda normalmente meses para ser produzido, "nós podemos fazer um em 24 horas", diz Beck.
No primeiro teste, realizado em maio, o Electron atingiu com sucesso o espaço, mas não entrou em órbita. Dois novos testes estão programados.
No momento, fabricantes de pequenos satélites pegam carona em lançamentos já previstos que têm um grande satélite como carga principal e espaço de sobra. Mas, com a demanda em alta pela observação da Terra, para fins meteorológicos, de turismo e na confecção de mapas, as empresas precisam de nova formas de chegar ao espaço.
Beck diz a Rocket Lab busca aproveitar essa oportunidade. Em vez de esperar por um lugar adequado em um grande foguete, "elas podem ir na internet, clicar em alguns botões e comprar um lançamento".
Uma empresa disposta a usar o Electron é a Planet Labs, empresa de São Francisco que fabrica minisatélites que pesam apenas 4kg. "Há um grande mercado para satélites pequenos que podem ser usados em diversas missões", diz o presidente da companhia, Will Marshall.
Diferentemente de satélites de telecomunicação comuns, que ficam em órbita geoestacionária a 35,7 mil km sobre a Terra, os satélites da Planet Labs, chamados Doves, voam muito mais baixo, a apenas 500 km. Isso significa que o satélite pode usar câmeras menores - o que reduz seu peso e custo a uma fração dos satélites tradicionais - e ainda assim conseguir imagens com uma boa resolução.
Ser pequeno e relativamente barato ainda permite que novos designs sejam testados e construídos rapidamente, diz a empresa. Em fevereiro, ela colocou 88 Doves em órbita. Em julho, foram 48. Agora, a Planet Labs afirma que pode fotografar cada ponto do planeta - todos os dias.
Marshall explica que reduzir o custo não implica apenas em um preço mais baixo para clientes, mas torna os dados coletados por satélites mais acessíveis. "Não só governos e grandes empresas podem comprar nossos dados. Qualquer pode fazer isso, seja um negócio pequeno ou médio ou uma ONG, um pesquisador, uma universidade."Ainda que o desenvolvimento de foguetes e satélites chame mais atenção, as principais mudanças estão nos usos da informação que é coletada.
Fazendeiros e empresas de mineração já utilizam dados assim. Os agricultores podem ser alertados sobre as condições do solo para melhorar sua colheita. Pescadores são informados sobre a temperatura do oceano para saber onde achar peixes. Com fotos cada vez mais detalhadas, é possível identificar uma árvore específica, algo valioso para monitorar o desmatamento.
Uma empresa que está aproveitando esse grande volume de dados é a Terrabotics, do Reino Unido. "Em uma imagem normal, você fica limitado ao tamanho de um pixel, mas há muita informação entre os pixels capturados", afirma seu presidente, Gareth Morgan.
"Processamos imagens em sub-pixels antes de ser feita qualquer análise. Criamos imagens com super-resolução, criamos uma base de dados 3D e colocamos isso em sistemas de inteligência artificial. Transformamos imagens em sinais, como ocorre com as ondas de rádio. Isso nos liberta das restrições do pixel."
Morgan explica que isso permite, por exemplo, "ver uma mina e determinar como ela mudou - se ficou mais profunda ou se a pilha de resíduos cresceu".
Competições e prêmios também estimulam inovações radicais. O desafio Ansari Xprize pediu que inventores desenvolvessem uma espaçonave tripulada reutilizável. Agora, o Google Lunar Xprize oferece US$ 20 milhões para a primeira equipe que levar um robô à Lua capaz de percorrer 500 metros e enviar imagens de volta à Terra.
Trata-se de criar incentivos à inovação e a novas formas de pensar sobre o espaço, diz Rahul Narayan, fundador da equipe Indus, de Bangalore, que não tinha qualquer experiência na área antes de decidir participar do desafio do Google.
"Nenhum de nós tinha trabalhado com ciência espacial, engenharia ou tecnologia. E isso foi bom, porque, se tivéssemos, nunca teríamos decidido fazer algo tão complexo assim."
Passo enorme
Há ainda a questão dos detritos espaciais - já existem cerca de 30 mil objetos, grandes e pequenos, em órbita. "Teremos que lidar com esse problema", afirma Marshall. "A indústria terá de começar a trazer essas coisas de volta, e não será fácil."
Se o retorno em potencial para investidores é grande, também há muitos riscos. Foguetes podem explodir, falhar no lançamento ou colocar satélites na órbita errada. "Foguetes não são a melhor forma de faturar com o espaço", diz Matt Perkins, que foi por dez anos o presidente da Surrey Satellites e hoje chefia a Oxford University Innovation, uma empresa de tecnologia da universidade britãnica de mesmo nome.
"A melhor forma de fazer dinheiro está no fim da cadeia - usando toda essa informação que vem do espaço. Conforme isso fica mais barato, surgirão oportunidades comerciais, com dados sendo utilizados de formas que nunca ninguém tinha pensado antes."
Se o espaço é a nova fronteira de negócios, caberá à inventividade humana tirar proveito disso.

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